É preciso preencher a cabeça deles

O Enem mostra que os brasileiros concluem a escola com deficiências básicas - o que lhes subtrai a chance de competir em igualdade de condições com jovens de todo o mundo.

Revista Veja (21/09/2011) - por renata Betti, Luis Guilherme Barrucho e Sandra Brasil

Quando o prêmio Nobel de Físi¬ca Richard Feynman (1918-1988) esteve no Brasil, nos anos 50, ficou assombrado com o que viu. Ao tomar contato com estudantes às vésperas do vestibular, espantaram-no tanto o pendor local pela decoreba de fórmulas como a completa ignorância sobre seu significado. Anos mais tarde, registraria em seus escritos aquilo que entendeu como um paradoxo brasileiro: entre os estudantes do mundo inteiro. os jovens que conheceu nos trópicos eram os que mais se debruçavam sobre a física e os que menos sabiam sobre a matéria. À medida que o ensino médio foi se expandindo no pais - em seis décadas, o porcentual de jovens matriculados passou de 3% para os atuais 51% -, a desvantagem escolar observada por Feynman só se agravou. As aulas são rasas, desinteressantes, incapazes de preparar os estudantes do século XXI para disputar espaço em um mercado de trabalho global, no qual a capacidade de inovar é cada vez mais valiosa. Alerta o sociólogo Simon Schwartzman: "Se não começar a desatar os nós do ensino médio, o Brasil vai ficar para trás".
O recém-divulgado Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prova aplicada pelo Ministério da Educação a 3,2 milhões de estudantes do pais inteiro, dá a dimensão exata do abismo a vencer. É um espanto. Dos 23.900 colégios públicos e particulares submetidos ao teste, não mais que 1500 - ou 6% da amostra - têm nível semelhante ao das escolas de países da OCDE (organização que reúne os mais ricos). O Enem trata de desmistificar uma ilusão que muitos pais cultivam ao matricular seus filhos em uma instituição privada - a de que eles ganharão um passaporte para o sucesso na vida adulta. Pois mesmo muitas das escolas que têm renome, prédios vistosos e mensalidades altas não resistem à comparação com suas congêneres estrangeiras: 80% oferecem na sala de aula qualidade equivalente à das escolas apenas medianas do mundo desenvolvido. Pasmem: na faixa dos 15 anos, estudantes demonstram dificuldade de resolver operações simples de matemática, como frações e porcentagens, e de compreender textos curtos.
Várias razões explicam o cenário de terra devastada - a começar pelo despreparo dos professores. A maioria deles desembarca na sala de aula sem nenhuma estratégia para despertar o interesse de jovens inseridos em um mundo no qual o saber enciclopédico deixou de fazer sentido diante da internet, a verdade, as deficiências de nossos mestres começam no nível mais básico. Os egressos das faculdades de pedagogia e das licenciaturas sabem pouco, ou nada, de didática, já que 80% do que aprenderam foram teorias obsoletas permeadas de bordões ideológicos. Às vésperas de formar-se pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro Liliane Maria dos Santos, de 27 anos, dá o retrato acabado desse equívoco: "Eu e meus colegas não estamos preparados para enfrentar a vida real na escola". Sobre o ensino médio pesa ainda um déficit de 40.000 professores, principalmente de matemática, química e física, segundo o MEC. São vagas preenchidas com gente de outras especialidades ou que nem mesmo chegou à faculdade. A escassez de cérebros para o ensino atinge escolas públicas e particulares. "É raridade encontrar um professor realmente bom", diz o diretor Adilson Garcia, do Colégio Vértice, em São Paulo, o terceiro colocado no ranking nacional do Enem.
O ensino médio brasileiro se apoia em uma equação que não tem como dar certo: em nenhum outro lugar do mundo se despeja tanto conteúdo na lousa em tão pouco tempo. No afã de suprir todas as demandas do vestibular e agora as do Enem - hoje passaporte de en¬trada para 167 universidades públicas e mais de 500 particulares -, o currículo só cresce, amontoando temas que mobi¬lizam apenas os estudantes brasileiros. Para se ter uma ideia, o número de tópicos apresentados ao aluno nas aulas de matemática chega a ser dez vezes o que aprende um típico estudante de Singapura (com o detalhe de que nós estamos na rabeira e eles, no topo). A velha cultura corporativista também tem sua parcela no inchaço do currículo. Ele vai inflando à medida que grupos com inte¬resses próprios lutam pela inclusão de mais e mais disciplinas. Ocorreu recentemente com filosofia e sociologia, hoje obrigatórias, e periga se repetir com esperanto e linguagem de sinais, que figuram entre os oitenta projetos do gênero que aguardam votação no Congresso Nacional. "O ensino médio é um verdadeiro massacre de matérias dadas de forma muito superficial", diz a estudante carioca Julia Pimentel, de 16 anos.
Espreme-se tudo isso em uma jornada escolar de quatro horas - quando não menos. Pesquisadores que acompanharam o dia a dia de dezoito escolas públicas durante quase um ano chegaram a uma conclusão estarrecedora: mesmo entre as melhores, o tempo líquido em sala de aula não passava de duas horas e treze minutos, contado no relógio. O desperdício se deve ao absenteísmo dos mestres, às greves e indisciplina - esta um mal também muito disseminado em colégios particulares, que, em geral, não sabem lidar com o problema. "Ver alunos e professores concentrados na sala de aula é coisa rara", resume Wanda Engel, superintendente do Instituto Unibanco coordenadora do estudo, feito em parceria com o Ibope. Para efeito de comparação, nos países de melhor ensino jovens passam, em media, seis horas na escola, às vezes até oito.
Os problemas do ensino médio começam a ser gestados bem antes, no nível fundamental. "Os alunos brasileiros acumulam deficiências tão graves que, ao chegar à etapa seguinte, ficam boiando na aula", diz a doutor em educação Maria Inês Fini. A metade dos 3,6 milhões que chegam a essa etapa acaba debandando dos bancos escolares antes do fim do ciclo - um funil que não condiz com uma economia que demanda cada vez mais gente bem formada. O fracasso do ensino médio torna necessária uma reflexão sobre o modelo brasileiro - único no mundo. Enquanto em países da OCDE os jovens podem escolher entre uma gama de escolas e disciplinas, no Bra¬sil o sistema é igual para todos, maçan¬te e enciclopédico, à revelia das dife-renças de interesses e expectativas de cada um. Não custa trazer à realidade brasileira as palavras do filósofo francês Michel de Mon¬taigne (1533-1592), que se preocupava com o ensino nas escolas de seu tempo. No período final da Renascença, ele dizia: "Uma cabeça benfeita vale mais do que uma cabeça cheia".


Lição dos que chegaram ao topo
Fatores decisivos para explicar a excelência nas dez escolas campeãs no último Enem.
• Os alunos passam pelo menos seis horas na escola ¬ duas a mais que a média brasileira.
• Todos os professores têm ensino superior completo e são permanentemente estimulados a continuar estudando.
• O corpo docente tem, em média, dez anos de casa.
• Há metas acadêmicas claras.
• As aulas são planejadas (e não intuitivas, como é tão comum em escolas brasileiras).
• Os diretores são figuras presentes na rotina escolar.
• Episódios de indisciplina são prontamente punidos.

Comentários

  1. Uma frase apropriada para este texto é ''O futuro será consequência do presente''.O problema está na educação básica, visto que na maioria das vezes a dificuldade de aprendizado começa nas séries iniciais e quando o problema não é tratado no primeiro instante com auxílio dos pais e professores, a dificuldade de aprendizado irá crescer a cada ano.As matérias também vão ficar cada vez mais complicadas e a partir daí os problemas irão ser mais graves.Veja um exemplo O HINO NACIONAL, são poucos os brasileiros que hoje conseguem cantar o Hino Nacional todo e corretamente, sendo que uma lei obrigava o aprendizado do Hino Nacional à todas escolas públicas e privadas, e infelizmente não é isso que acontece.Já a concorrer a uma vaga no vestibular , o conhecimento de aluno que estuda 2 a 4 horas não será o mesmo de um aluno que estuda 8 horas por dia e levando em conta que a desigualdade social ainda está presente, as oportunidades deste aluno será cada vez menor. Precisamos de programas de formação de diretores e gestores para iniciar o processo de reforma na educação e da valorização desses profissionais,aumento nos investimentos na educação e incentivo aos alunos.A educação brasileira precisa de planejamento e estrutura, pois nós não podemos querer melhorar o futuro, se no presente não realizamos mudanças positivas.

    Patrícia Matos.

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  2. Como consequência de estudo insuficiente é o caso de alguns profissionais de saúde, que estudam em média 5 anos e muitos ao se formar mal conseguem aplicar uma injeção corretamente. Notícias são veiculadas constantemente monstrando erros cometidos nos atendimentos médicos.Recente vimos o caso de uma enfermeira que aplicou uma outra substância na veia de uma criança, ao invés do soro que era o necessário. Médicos esquecem instrumentos cirúrgicos, ataduras dentro dos pacientes. Acredito de forma particular que da mesma forma que há uma seleção rigorosa para os profissionais de direito, como a Prova da OAB. Se houvesse uma prova similar aos profissionais da área da saúde ,menos erros seriam cometidos. Além disso acho que dois meses de convivência em hospital para alguns alunos da área da saúde também é insuficiente.

    Patrícia Matos

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Bom, analisando o artigo vemos retratado um quadro que infelizmente já conhecemos: a precariedade da educação pública brasileira. Entreato aborda também um fato que para muitas pessoas é desconhecido, que não só o sistema público mas também o particular contém falhas, e falhas graves... Ajuda a desmistificar a ideia que é propagada em relação as instituições privadas, que fazem os pais matricularem os filhos nessas escolas, e acreditam que o mesmo terá um ensino superior e conseguirá ingressar facilmente na universidade. Isso mesmo! Eles desejam que seus filhos faça a universidade pública e não a privada, pois as universidades publicas são mais valorizadas. Verdade que existe realmente em nosso país uma diferença entre privado e público... Contudo, até onde vai essa diferença? E até onde temos que aceitá-la? É crucial que esse tipo de texto chegue aos meios de comunicação em massa, para alertar a população, para que vejam como seu dinheiro, que é arrecadado através de impostos, está sendo mal aplicado.Para que os pais que realmente desejam uma educação de qualidade reivindiquem seus direitos, cobre dos governantes,que os professores tenham uma boa formação, do colégio que avalie os seus profissionais e dos professores, que muitos diversas vezes não cumprem seus papéis que usem o tempo em sala de aula de maneira correta e proveitosa. E que os pais,também acompanhem o desenvolvimento dos seus filhos e os influenciem a estudar. Creio que simples medidas como estas são fundamentais para reverter esse quadro.

    Thaís da Paz Santos

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  5. Realmente é preciso preencher a cabeça deles , mas como e quando ?Essa é uma perguntar que será difícil de ser respondida.
    No 1º parágrafo Richard Feynman comenta sobre as decorebas de fórmulas às vésperas do vestibular e no texto mostra que ele viu isso nos anos 50 e hoje , infelizmente , não é diferente presenciar cenas como essas.Muitos alunos se preocupam apenas em aprender algo quando ver a necessidade de usá-los para benefício próprio , ao contrário , eles não pensam em aprender para um crescimento estudantil, cultural e social. E quando o sociólogo Simon Schwartzman fala que :'Se não começar a desatar os nós do ensino médio , o Brasil vai ficar para trás'.eu discordo em parte.Não temos que desatar os nós do ensino médio e sim os nós que vem desde o ensino passado , porque no ensino médio os estudantes devem estar libertos de dúvidas e de medos para prepararem-se para etapas adiantes.Os estudantes precisam de uma atenção e educação maior desde o princípio de seus estudos , porque na minha opinião quanto mais o tempo passa mais complicado fica.E o Brasil ficará para trás se esperarmos demais e não nos mobilizarmos .
    No 3º parágrafo afirma que várias razões explicam o cenário de terra devastada -- a começar pelo despreparo dos professores.Além deles estarem na sala de aula sem nenhuma estratégia para despertar o interesse dos jovens, eles insistem em apostar nas mesmices , que são aquelas aulas que o professor entra na sala , fala , fala e fala e sai. Algumas vezes terá alguém que entenderá ou que gostará dessa maneira de aula , mas em uma sala onde 100% dos alunos apenas 5% ´restam atenção ou absorvem o assunto , não é benéfico para o avanço brasileiro.Os atuais professores e os que pretendem ser Devem estar atentos a essa situação.Eles deveriam e devem estar buscando maneiras de interar o aluno aluno nas aulas além de fazer com que os assuntos venham a fluir com mais facilidade em suas cabeças.
    No 4º parágrafo mostra que o número de tópicos apresentados ao aluno nas aulas de matemática chega a ser dez vezes o que aprende um típico estudante de Singapura.É perceptível colégios e professores que apostam em quantidade ao invés de qualidade e isso faz com que os estudantes encham suas cabeças , mas que logo esquecem ou não tiram proveito de nada , então no meu ponto de vista é preferível saber um pouco de cada coisa do que tentar amontoar muita coisa e no final não saber nada.

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  6. No 5º parágrafo Wanda Engel resume dizendo que : ' Ver alunos e professores concentrados na sala de aula é coisa rara'.Isso não deixa de ser verdade , muitos alunos estão esquecendo o real significado que uma escola tem , muitos fazem da mesma , um ponto de encontro, um local de lazer , ou algo do tipo , ele s não estão indo com o intuito de aprender e sim com o intuito de rever os amigos , de colocar os papos em dia de 'paquerar' , entre outros.E o que acontece com os professores é que muitas vezes não sabem puxar rédia dos alunos e deixam levar-se.Muitos professores e alunos comparecem à escola apenas para marcar presença e cada dia que passa isso torna-se lastimoso.
    Michel de Montaigne , no período final da Renascença dizia : ' Uma cabeça benfeita vale mais que uma cabeça cheia'.Precisamos preparar os adolescentes e jovens brasileiros para o futuro , temos que moldar suas cabeças e deixar apenas o que for proveitoso,Nós não queremos só alunos e sim estudantes, e nem queremos apenas professores e sim educadores.

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  7. Há duas avaliações possíveis em relação à educação brasileira em geral. Em primeiro pode-se ressaltar os problemas apontados nestes testes nacionais, como o ENEM, e a má colocação do país nos principais rankings internacionais; ou olhar pelo lado positivo, de que o acesso à escola está perto da universalização e que mesmo com dificuldade, os índices de qualidade dos últimos anos aponta uma trajetória de melhora. Já sobre o ensino médio, não há opção: os dados de abandono são alarmantes e não há avanço na qualidade na última década. São vários os problemas encontrados no ensino médio do Brasil, porém toma-se como principais a falta de professores realmente qualificados e o fato de até pouco tempo – e para muitos até agora – esta etapa da educação não ser vista como essencial.

    Para ensinar, seria esperado que os professores estivessem entre os profissionais mais bem preparados da sociedade, mas os salários baixos e relatos de condições de trabalho inadequadas afastaram da carreira a maioria das pessoas com os melhores desempenhos enquanto estudantes. A falta de atratividade da profissão atinge a educação brasileira como um todo, mas provoca consequências ainda mais sérias no ensino médio. A falta de preparo é mais preocupante porque a complexidade dos conteúdos exigiria profissionais com formações específicas e aprofundadas, mas como as escolas não encontram quantidade suficiente no mercado, salas de aula acabam ficando vazias ou professores de uma área são improvisados em outras para as quais não têm formação adequada.

    O fato é que o ensino médio está cada vez mais problemático, é certo também que este problema é antigo, mas torna-se mais grave e urgente, pois a chance de um jovem sem 2º grau completo ser excluído na sociedade atual é muito maior do que há uma década, por exemplo.

    Marcela Viviane Brito Portela - 3º ano

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  8. O problema da educação precária no Brasil- na sua maioria a educação pública, é um fator que afeta todo o futuro do país. Muitos brasileiros concluem o ensino médio sem ter adquirido o conteúdo necessário para ingressar numa Universidade, o que é resultado da falta desse conteúdo que nem é ensinado para os alunos, ou é passado de forma superficial e da carência de preparação de diversos professores. Se os estudantes não estam preparados, como chegarão a Universidade? Se não transformarem-se em profissionais qualificados através do conhecimento obtido na Instituição de Ensino Superior, como o Brasil se desenvolverá? É necessário que os professores estejam além de capacitados, preparados para assumir uma sala de aula, tendo metodologias de ensino coerentes, dando atenção para as provas de vestibulares e do Exame Nacional do ensino Médio (Enem) tornando os alunos aptos para essas avaliações. Pois com os jovens qualificados, teremos no país mais profissionais colaborando com o desenvolvimento do Brasil, nas diversas áreas em que podem atuar, por exemplo, educação, saúde, tecnológica e científica.

    Ludmila Suzarte Marques dos Santos

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  9. Infelizmente, Marcela Viviane, não poderei avaliar um comentário construído a partir da cópia de dois textos divulgados no site de notícias IG -Ultimo Segundo: Faltam professores qualificados no ensino médio (http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/faltam+professores+qualificados+no+ensino+medio/n1238106792909.html) e Ensino médio: a pior etapa da educação do Brasil (http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/ensino+medio+a+pior+etapa+da+educacao+do+brasil/n1238031482488.html).

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